Da Poluição Musical Comparada à Plastificação dos Oceanos



Durabilidade, estabilidade e resistência à desintegração são as propriedades que fazem do plástico(e da música) um dos produtos com maiores aplicações e utilidades ao consumidor final(ouvinte hedonista). São produzidos anualmente cerca de 100 milhões de toneladas de plástico(canções de amor A B A B A C D A B D D) e cerca de 10% deste total acabam nos oceanos(no ruído), sendo que 80% desta fração vem de terra firme(do mercado cultural). 
Vórtex(entitade bailante)
No oceano pacífico(no ruído delicado) há uma enorme camada flutuante de plástico(estruturações dinâmicas dos modos de escuta "fake"), que já é considerada a maior concentração de lixo do mundo(a radiodifusão, a teledifusão, a digitodifusão), com cerca de 1000 km de extensão(vide google), vai da costa da Califórnia(do vale do Silíncio), atravessa o Havaí(onde gravam Lost) e chega a meio caminho do Japão(vide Paprika) e atinge uma profundidade de mais ou menos 10 metros . Acredita-se que haja neste Vórtex de lixo cerca de 100 milhões de toneladas de plásticos de todos os tipos(a tipologia classicizante do 2.0).

Pedaços de redes(jingles antigos),garrafas(poesias sonoras)tampas,bolas(planimetria akrónica) ,bonecas(espectrosoperísticos), patos de borracha(preservativos aurais)tênis, isqueiros(rituais musicantes)sacolas plásticas, caiaquesmalas(pop) e todo exemplar possível de ser feito com plástico(sonoplastia). Segundo seus descobridores, a mancha de lixo, ou sopa plástica tem quase duas vezes o tamanho dos Estados Unidos(MTV).





Pesquisa-se esta mancha há 15 anos e compara-se este Vórtex a uma entidade viva, um grande animal se movimentando livremente pelo pacifico(biofonia). E quando passa perto do continente, tem-se praias cobertas de lixo plástico de ponta a ponta(vide carnaval).


tartaruga deformada por aro plástico
à moda dos gatos bonsai



A bolha plástica(escuta hedonista ou musical) atualmente está em duas grandes áreas ligadas por uma parte estreita(ruído urbano). Referem-se a elas como bolha oriental(misticismo cageano) e bolha ocidental(maximalismo stockhausênico). Um marinheiro que navegou pela área no final dos anos 90(f?) disse que ficou atordoado com a visão do oceano de lixo plástico a sua frente. 'Como foi possível fazermos isso?' - 'Naveguei por mais de uma semana sobre todo esse lixo e nele me banhei'.

Pesquisadores alertam para o fato de que toda peça plástica(sample) que foi manufaturada desde que descobrimos este material, e que não foram recicladasainda estão em algum lugar. E ainda há o problema das partículas decompostas deste plástico(releituras). Segundo dados puros, em algumas áreas do oceano podem se encontrar uma concentração de polímeros(harmônias) de até seis vezes mais do que o fitoplâncton(tríade), base da cadeia alimentar marinha(melodia).

Todas a peças plásticas acima foram tiradas do estômago desta ave(como um canto do catalogue de Oisseaux de Messiaen)
Segundo PNUMA(R.Murray Schaffer), o programa das nações unidas para o meio ambiente(os higienistas do mundo sem ruído), este plástico é responsável pela morte de mais de um milhão de aves marinhas(o canto das aves imitam os motores) todos os anos. Sem contar toda a outra fauna(subjetiva) que vive nesta área, como tartarugas marinhas(carapaças geométricas), tubarões(dentes dos nervos auriculares), e centenas de espécies de peixes(senhores do labirinto antes de sua cristalização plástica). 
Essa deliciosa sopa plásticapode funcionar como uma esponja(aparelho de captura sinestésica), que concentraria todo tipo de poluentes persistentes(guerrilha semiótica), ou seja, qualquer animal que se alimentar nestas regiões estará ingerindo altos índices de venenos(propaganda ideológica), que podem ser introduzidos, através da pesca(composição), na cadeia alimentar humana, fechando-se o ciclo, na mais pura verdade de que o que fazemos à terra(à harmonia contextual) retorna à nós, seres humanos(ouvintescompositores).

Confiram outras fontes: The Independent , Greenpeace e Mindfully

Seduções da Escuta

Apresento algo porvir da pele, do suor e do sêmen com o coletivo Esquizotrans e o grupo Solange, Tô Aberta no festival Funfarra de Brasília.
------------------------{performance para esquizotrans}------------------------
Toque Ubiquo
Movimento primeiro: Um homem se senta em silêncio olhando os olhos do público e ouvindo seus corpos enquanto a máquina grava. Ele perdura o silêncio até que este seja interrompido por alguma palavra acima de -15dB.
Movimento segundo: Escolhe, então, alguém do público e com um microfone grava os sons de sua pele, pelos, poros e vestimentas por 5 minutos.
Movimento terceiro: Pede à mesma pessoa que então o grave enquanto ele altera os sons digitalmente.

Três palestras na UNB: 
Musicaridade, Filosonia & Erotonia Tácita. Para inscrições e participação no curso não-presencial promovido pelo CEPES e pela pós em Filosofia, acesse http://www.gie.cespe.unb.br


------------------------ [duas palestras e uma oficina de criação] ------------------------




I.Musicaridade
“A música não funciona. Quantas canções de amor há e ainda não nos amamos?” John Lennon
1.1. Introdução à inefabilidade aural (Heráclito e o ruído do rio de fogo), incognosciência sonora (Bachelard, o som e os sonhos, e a fenomenologia do efêmero) e irrepresentabilidade musical (a Jaula de Cage no confissionário de Foucault).
1.2. Sedução e escuta (teleologia do gemido comparada à do gozo). Qual o som do sangue? A arte de merda e o coração de ouro.
"Music is not a language. Any musical piece is akin to a boulder with complex forms, with striations and engraved designs atop and within, which men can decipher in a thousand different ways without ever finding the right answer or the best one. By virtue of this multiple exegesis, music evokes all manners of phantasmagoria, as would a catalyzing crystal. - Iannis Xenakis
1.3. Três profundidades da pele do som (som-ruído-epiderme,música-derme,som-silêncio-hipoderme). Três modos de amar sonoro: caridade (ágape-iemanjá), amizade (filia-iansã), erotismo (eros-oxum).
1.4. Caridade como pressuposto da estética sonora (Caritas, ama de leite das musas). O anseio pela beleza (criado por esta mesma) e da arte como consolo metafísico (variações do Zoroastro persa sobre o Nietzsche compositor de liedez passando pelo Zaratustra cristão de Strauss, e Javé).
1.5. De como a beleza formal (Berio e o gesto musical nos escombros da Broadway) se recolheu ao silêncio dos ruídos (Debussy e A Mar, Satie com as mobílias) devido à mercantilização da caridade (Smeták, heremita no instrumento) levando-nos a uma proliferação da escuta plástica (pop, monotonia, emo e rótulos do desamor moderno-romântico em Bowie e Veloso) na harmonia contextual (Schaffer e as relações entre ecologia e economia) da atual acusfera (ciberfonia, capital é desafeto) transpassando os processos de sedução por dança melódica (Amadeus irônico, Bach crente, Berlioz erotômano, Chopin sombrio, Lizst sarcástico) na hierarquia da altura (Catherine Clemént na ópera com Freddie Mercury assistindo à derrota do feminino).
1.6. Resistência (musicoterapia e cancioneiro de auto-ajuda) e insistência (Coltrane e o Salmo ao Amor Supremo) na caridade de escuta (Keulheutter e Andrômeda, Stockhausen e Sirius) e composição geométrica dos fractais sentimentais-lógicos (Kepler, astronomologia e o compositor como composição) da música.
“E não seria o dever a forma altruísta do amor?” Jean Paul Sartre em “A Imaginação”
"Sem o imperialismo do conceito, a música teria substituído a filosofia: seria então o paraíso da evidência inexprimivel, uma epidemia de éxtases" Emil Cioran




II.Filosonia
“Quanto maior o rio, menos ruído ele faz.” Provérbio Tupy
2.1 Introdução à impregnação (Novalis e a luz se decompondo em algo mais que cores e o artista como sistema nervoso da natureza) por contágio aural (Diamanda Galas e o estupro de Adonis).
2.2 Harmonia entrópica (Jung e a ausência de foco entropológico do silêncio imanente) dos afetos (Aristóteles e as amizades como fim da Metafísica, políticas do corpo aural).
2.3 Ruído (“Fedor nos ouvidos. Música não-domesticada. Principal produto e testemunho comprovatório da civilização” segundo Ambrose Bierce) e desperdício (Mark Twain e a galinha que gemia como se botasse asteróides).
2.4 Inutilidade (Domenico DeMasi e Roussel tirando um cochilo na rede) como pressuposto tanto da amizade (Cage e a gagueira de Buckminster Füller) como da composição de uma escuta (Arcano VI da periferia orelha ao cerne do tímpano onde jaz o tambor do julgamento dos ritmos de encontro).
2.5 Melodia de timbres como fluxo do menor atrito (sintonia e sincronia) por entre as redes da ruidocracia (Heidegger e a computação como fim da lógica ocidental).
2.6 Audioadicção (Burroughs e as duas abstinências, Cioran e o tédio) dos afetos (Crowley disse “Bruxos[amigos] do mundo, uni-vos” enquanto Piva pixava nos poliedros “Xamãs[amigos] no mundo, espalhemo-nos”) e capitalismo subjetivo do aparelhamento das redes (“pirate ships in the chips animals territories”).
“So don't fear if you hear, A foreign sound to your ear, It's alright, Ma, I'm only sighing.” Bob Dylan


III.Erotonia Tácita
“Prometeu é antes um amante vigoroso a um inteligente filósofo.” Mircea Eliade
3.1. Introdução ao erotismo do tom silencioso (drone, monoatonia e o mantra do ruído). Metamorphopoiése e o intrincar entre processo e produto (Arcano III do contraste ao envelope), o palestrante não falará mais, mas apenas incitará os presentes à ação.
3.2. Práticas acústicas (foco auditivo, morfomicrofonação, dançaural).
3.3. Práticas acusmáticas (rugosidade, fluência e corte-ex em edição sonora).
3.4. Práticas harmônicas de acústica contextual (fonosmose, equalização, regência de objetos sonoros).
3.5. Práticas aurais (metaescuta, retroescuta, dançaural).
3.6. Práticas radiais (projeção, difusão, radiação, emanação).
“Através da obediência ativa [ao desejo], a audição torna-se sensível e clara.” Hexagrama Ting do IChing




------------------------ [um manifesto esquizotrans] ------------------------

Não acreditamos mais no esgoto a céu aberto que separa a alma da genitália. Nem conseguimos mais nos enganar com a pornografia da carochinha de que não há almas dentro da alma, nem genitálias dentro da alma, nem genitálias dentro das genitálias, nem papai noel sem xoxota.

Não aceitamos a tirania da monossexualidade sã e salva; deixem a Electra comendo o Édipo de pauzinho. Chega destas obsessões com porcas e parafusos fixos, nem somos feitas de aço inoxidável e nem de desejos curáveis, eles são obscenos e tem neconas mesmo que sem zarô, cavalas em disparada, necas de pitibiriba. Que tal eu virar Elke Maravilha e depois o Barack Obama e depois a Herculine Barbin e depois Max Ernst com uma bunda de Carla Peres antes de você terminar de gozar? Não aceitamos a tirania das monoidentidades e vamos passar a portar mais de um equipamento sexual, seremos portadores de mais de uma fissura retroativa em mutação, portadores de mais de uma carteira de identidade – uma para cada órgão do corpo que formos inventando. Não me diga que se lembra? Finja que está fingindo, improvise no seu bairro as pernas abertas e passe por baixo delas porque depois do arco-íris há uma língua, um gemido e uma hiena. Que é de lixo que somos feitos; pinto no lixo, reciclado em cotovelo, tornozelo virado da mãe do avesso, toda retráctil.

A Voz Humana e O Telefone

Theatro São Pedro, 19 de Setembro de 2007.

Banda Sinfônica do Estado de São Paulo


O canto suspenso pela linha não é o mesmo das cartas a Sofia. Se os soldados mantêm-se emparelhados aos escritos, é pela próprio excesso de contato trazido pela virtualidade que silencia-se à palavra falada ao íntimo.
Uma estilista de moda é a personificação mais distinta que se poderia esperar da heroína da Ópera Moderna. Somos escutas de esperas, se ao século XVIII um mundo calado emanava a beleza na insurgência da música, o XX já previa a saturação melódico-harmônica e a necessidade de uma arte do silêncio. Nas ondas das modas as notas não cessam, porém.

“Telefonista, por favor me conecte.”

O vão é distinto nas cordas vocais da soprano e do barítono. A própria voz poderia esgarçar em busca do tom de Fourier, as cordas poderiam paralizar o tempo do impulso…os músicos estão sempre ocupados… Como se as próprias obras não conseguissem nunca alcançar o público.
O cenário diagonal carrega os olhares ao chão. Os ouvidos plainam entre os tons inteiros da orquestra enviezada pelo histrionismo vocal… o gutural só surgirá na morte da diva esvaziada.
No primeiro movimento bufônico de Menoti a ausência da mulher para o homem é um convite à fuga em si maior. Já no libreto de Cocteau a ausência da voz mesma masculina abre a brecha terrível da esquizohisteria, salto para o vazio de Turandot. Chaterine Clément tem uma obra ímpar sobre estas sutilezas: “A Ópera, Ou a Derrota das Mulheres”.

“O jovem Adônis morreu
que faremos agora?
lacerai o peito mulheres,
dilacerai as vestes!” - Safo de Lesbos

A ópera reduzida à reclamação do amor possível. Um pragário contra o Liebestod. A tal pulsante energia primitiva que houvera um dia, corrompida agora pela representação histórica da própria música. Entre músicos e música se interpõe o pedágio semiótico, o filtro digital. Estaética mesma que propõe o riso do palhaço e convence a todos à sisudez, que demanda a técnica composicional e investe no transe mel-ódico, que clama pelo enredamento das classes criativas mas previne-nos de qualquer real contato.

Qualquer coisa, me conecta no Skype.

Silêncio, Por Favor.

Silêncio, por favor! Falar, gesto de profanação. Rompemos as intrincadas tessituras entre silêncio e som para interpormos nosso tremular verborrágico, a explicação quer ter ao inexplicável, o paradoxo é a paixão primeira do que é.

Nos lembremos que informação não é conhecimento, conhecimento não é sabedoria, sabedoria não é beleza, beleza não é amor, amor não é música e a música… a música musica algo para muito além de nós.

Jogados no mundo, movemo-nos aos caprichos da guerra de tudo contra tudo, sinergia das potências… Só habitamos pontes, linguagens, vínculos antropocósmicos perdidos na cegueira das sensualidades, semióticas. Os amantes das mathemas epistémicas cruzam os abismos absurdos pautados em seus cabrestos axiomas, limitam os sensos pelo bom, toda procissão tem sua pragmática ritualística. Ao devaneio poético, resta senão suspirar: Levai-me caminhos!

Ouçamos a sinfonia do (e no) mundo, {…} não podemos esquecer o som das britadeiras e dos automóveis, as pontes estão sempre em construção. Cessasse o esgoto radioativo e suas dança do acasalamento palavra-lei som-potência do cancioneiro; não mais rissem as buzinas do livre-arbítrio e do fluxo; os mascates parassem de vender as vendas; não estendesse o sonic boom aviador às linhas de morte, fuga e fumaça das geometrias orbitais; silenciada a pólis aos seus 40 deciBéis por metro quadrado; ainda assim, a mais delicada sutileza do concreto pleitearia ao fortissimo furioso do barro oco.

A distinção entre ruído e música toca o cerne da estética transcendental, o que é indesejado e o que é desejável do que devem? Esquizofonia, o cárcere auditivo a uma paleta de modulações das ondas sonoras (cortimbre, melodiarmonia, ritmopulso) é também o abrigo de nossos valores oníricos, moiras e morus. Durar cruza o espaço tal qual psiché atravessa qualquer investida do lógos e inversamente. Nos alimentamos das origens que retemos nestas tramas, somos como soamos.

Onde ouvimos o agora? {…} Porão escondido atrás das cópias sob a curva do rio, ponte fictícia do religare entre fé e o que é. A alcova, o ninho, a toca, a terra não tem limites abaixo em nossos sonhos, o porão é o portão do hades. O refúgio sempre está no olho do furacão, os ouvidos não piscam. Aqui está quente porque lá fora faz frio, é numa divergência convergente que alicerçamos nossos paraísos artificiais. É nos invernos da memória que se atualiza o lar de uma casa, sua máquina de afronta ao cosmo e nisto todo cálice é morada, brindemos.

Que ouvimos do aqui? {…} As vigas de sustentação tremem, respiramos, respiramos, não há momento que consigamos estar juntos sem alguém falando {…} O espaço seduz-nos com a intimidade a agirmos, a movermos os cômodos de lugar, os centros de solidões, tédios; paixões agrupadas nas salas da construção de mais um corpo sem órgãos, reduzimos os refúgios de nossas musas ao reduto de nossa autoridade de autores, a ágora obriga-nos a subverter nossas relações em políticas.

Conseguiríamos calar nossas vontades tempo suficiente para ouvir nossos tantos corpos, porém? {…} Os corpos humanos estão em corpos sociais em corpos arquitetônicos em corpos celestes, e estes, entre outros criam corpos sonoros da mesma maneira que meu corpo linguístico enquanto vos falo.

Que pede-nos aqui e agora esta voz que silencia? Favorecidos com a a-tensão, suspendamos por dez minutos a palavra, não falemos. Experienciemos ao menos uma vez este porão de subjetividades sônicas, devaneemos a outras escutas de nossas incontáveis peles além da ratio-plausível. Para que a música nascida de cada ínfimo movimento e gesto nossos, a harmonia sonora dos corpos ambientes, não nos trespassem despercebida. Só por hoje deixemos soar os cantos de nós, nos esqueçamos só por hoje do véu da técnica e deixemos que a música nos dance. Ouçamo-nos sem palavras. Silêncio, por favor! Em dez minutos musicaremos…

Face Sonora e Maquiagem Musical


Este texto foi palestrava no MIS de São Paulo enquanto o compositor era maquiado com aparelhos que geravam sons granulares, realizado com Vivian Caccuri.
BASE
Que minhas palavras não me maquiem como os belos e grandes automóveis fazem com o tráfego.
Um texto maquia um verso, a memória maquia o devir, a música maquia o som.  A pele é o mais profundo abismo sobre o qual lançaríamos os dados de nossas pontes semiônticas. Alô base, responda!
Uma face é um rosto sem rosto.
A interface é o ruído entendido em seu silêncio, assim como a maquiagem é senão uma sujeira aceitável.
Um rosto e seus traços de rostidade (um estilo musical e os movimentos ecléticos que o atravessam) são resistências de um ego social no corpo (através da tensão muscular e tátil), que tornam seus segmentos controlados (ocular e oral) em palcos da auto representação política ao impedirem a fluência dos livres movimento das correntes energéticas dos modos desencouraçados da face (aural e olfativo). Uma desterritorialização do corpo implica uma reterritorializacão no rosto.
Há uma sobrecodificação (metaprogramação neuroimagética) pela hegemonia do utilitarismo da face e do som (iconoclastia hedonista musical, hierarquia das alturas melódicas, narcisismo semântico dos dados impuros). Tal máquina de rostidade (produção social da musicalização e do rosto), efetua uma rostificação de todo o corpo (uma musicalização de toda a escuta), de seus entornos (you are your playlist) e de suas funções. Se o rosto produzido socialmente é uma política, desfazer o rosto também será uma política (se a música produzida socialmente é uma economia, desfazer tal música também será um produto de mercado).
Mas eu hei de maquiar estas palavras com as faces mortas dos ídolos, como se cada nome puxasse nós e os nervos capilares do ouvido mais próximos à garganta.


A síntese granular da música eletroacústica se baseia no delírio quântico atômico, erotismo de areia, filé à milanesa, devir rapé da escuta. Do pó ao só, do grão ao drão, do um ao bum. Cheira o cangote da pessoa ao teu lado. É cheiro de gente ou um casamento químico?
Cada torno da roda das modas, ou as giras das ninfas, por exemplo de Eco a Calypso, são sinos tocando contas de vidro.
Baudrillard fala de três estupros pro nascimento do humano: trabalho, consciência da morte, repressão sexual. O epicentro da artificialidade se põe entre nosso desejo contínuo pela objetificação de nossas subjetividades, Genet come margaridas antes de vender seu corpo de novo, carrega as mortalhas de seus afetos em nome de uma autopoiése mais. Eros ergo Muse.
A prostituição por si só permitiu o enfeite, salientando o valor erótico do humano feito objeto e serviço. Um tal enfeite é, em princípio, contrário ao movimento de negação do enlace sedutivo da mulher que se nega para gerar a caça ao objeto de si por parte do homem. A prostituição de umas determina o esquivar-se de outras…formas de uso do rosto. No princípio a prostituição era só uma outra face do casamento, chamar-se-ia dom ou dote.
Não é de se espantar que os mais antigos traços de civilização sejam a maquiagem funerária e a prostituição. O que se maquila num rosto, mesmo vivo, é seu inevitável cadáver e são os vermes que gostaríamos de realmente seduzir com a mais descarada nudez das vestes.
A estratégia camaleônica de Bowie, em sua dança pelas ondas tendenciais dos nichos da moda, o campo hipermoderno da escuta eclética, tem uma objetificação direta no entrincheiramento urbano do autismo. O rádio(e seus ipods provenientes) é uma tecnologia de guerra assim como a maquiagem rajada alternou do verde vietcongue para o cáqui jogador de golf iraquiano. Mudança similar da do fim da guerra fria, e a mudança do paradigma dos espiões para o dos terroristas, de Mata Hari a Wafa al-Bas. Quando o terrorist-chic virará tendência em Paris? O soldado está para a santa em pedaços no passo do gato como o filósofo para a puta sem clientes.
Banhos de sêmem no topo das pirâmides, já romanas. Quem lamberá as feridas de Orlan? Quem juntará os cacos de Hans Bellmer, Cindy Sherman? É por rosto mercurial, tronco salgado e barbatanas sulfúricas que o canto das sirenes atravessa as eras e as bocadas. É uma emergência, o toque à pele. São memórias futuras calcinando em teus poros as cores que nem teus olhos puderam compreender, algumas fodem e procriam em tua língua, algumas outas, compreensões de cicatrizes. Súbita efêmera sensação da realização da essência do fogo: Epifania.

CORAÇÃO
Tudo que tiveste imensa vontade de dizer e não pudeste expressar em palavras, depois o mostrará tua face.
Elke Maravilha, nada em nuvens de sombras coloridas e constela os céus de luz fria com estrelas de rímel. Pousa na beira de estrada caiada e canta para Novalis que gira a bolcinha com Burroughs… Cantos texturados de mútua sedução compõem a carta que ele tem em mãos, manchada como seus olhos. Fala de um Ulysses que não florecerá, homem de esperas e partidas. Choro de ninfa puta “Eles nunca ficam, eles não compreendem… e vão.”. Mas sempre um sorriso tremulando a espinha avisa a face a desenhar-se novamente ao coro do corpo.
Visage! Berio desnuda Cathy Barberian apenas para vestir suas cordas vocais com seus cálculos, lembrá-la da Enlil animal peludo. Lembremos que Poser é um software de avatares. Assim como o teatro se torna a pátria nula das máscaras de transparências após Godot. E perto destes cantos, Peter Grimmes é pouco mais que Pinóquio, corpo de madeira em cordas… E jamais nos esqueçamos que a própria forma vitruviana do corpo carrega em si sentimentos dos mais profundos, Casanova nos gestos mais sutis de desespero apaixonado ao maquiar as sombrancelhas da amada criatura apenas para poder desenhar-lhe olhos. Criamos uma música para que alguém ouça não apenas a nós, mas como nós.
Desde o pierrô lunar, títere maquilado dos influxos do íntimo até os arlequins solares do glam; é movida a sangue de purpurina e gasolina, a vaidade dos Golem.
No frenesi de maquiar cada encontro imediato no enredamento útil do netflerting, faríamos da alteridade não mas que um espelho de youtube.
Como vocês cozinhariam em um caldeirão de cera, se quando aquecido este também se põe a derreter? E ainda, como haveriam de pintá-lo?
Fez questão de deixar os lábios borrados depois do beijo, dormiria na cozinha suja e queria a nudez plena do descaso de si em mim. No dia seguinte de rosto lavado houvera de recitar Hilda Hilst em inglês enquanto cambaleava pela Liberdade.

SOMBRA
Se a não fossem de fluxos em decantações os corpos e a técnica hefaística quisesse de fato criar a perfeita prisão para as musas, o museu, haveria de mister dispô-lo entre um salão de belezas e uma academia de gimnopédias com mobília musical, como que ria Satie. Todo erigido em carbono, para facilitar a datação de nossas vaidades e luxúrias.
Olhava dentro de meus olhos e ouvia o tremular enquanto dormiu. Algo não foi compartilhado. Some storms are better without shelter. A cor da flor não escorre à chuva.
Ainda haverá um MAT, museu do aroma e do toque. Flores de plástico com borrifadores de aromas sintéticos criarão os âmbitos de nostalgia de certas intoxicações, do chocolate às caixas envernizadas. O hall das fezes históricas, de Beuys a Wharol. Estudiosos farão teses sobre a consistência e o aroma destas baseados nos hábitos declarados e nas imagens de arquivo. Em algum canto talvez haja uma pele para quando já não nos lembrarmos do encontro incondicional.
Beijou meus cílios e apertando a palma da mão contra meu peito, riu alto: mulher! Borrando o seu batom respondi enquanto tocava sua buceta: androgênio…
Se o artista aponta os problemas sociais é só para saber-se também a maquiagem destes. A simpatia da comcunbina para com o eunuco. Nas palavras de Cazuza: “Eu sou burguês, mas sou artista.” Aí vocês suspiram que gostaram ou não da obra e eu pergunto sobra as suas enquanto me retoco para o próximo concerto.

BLUSH
A rostidade está inscrita na linguagem como os estilos musicais inscrevem fronteiras à escuta. Ser babyface implicará a capacidade de representar o papel de barbie-modelo-amante subdominante ouvindo powerpop de girlsbands e emo, talkingface dará conta de uma pessoa crível que poderá jogar como o político-vendedor-informante ouvindo jazz fusion classic rock; scarface nos faz voltar aos guetos e aos submundos mafiosos da vida lôca do lado de lá da ponte do gangsta rap bolero spirituals; fuckingface tem sua tradução direta ao português assim como o pancadão revirou electrochic parisiense.  Obra de arte sob ar condicionado e a sexualidade maniqueísta(e aqui cito o gnóstico Manis). Como pode a diferença, ou ainda os trânsitos de sexualidade, fazerem alguma diferenciação ou gestar um transe?
Vocês! Todos vocês se despuzeram a sair de casa e vir ao museu e se prostam com interesse diante nossos sons, mas quantos estariam interessados em nossos aromas e secreções?
Uma das revistas de maior tiragem no Brasil (Caras) segue neste mesmo sentido, um paradigma de rostidade careta indicando sempre os shows de MPB mais badalados e chics. Multiplicação da presença das caras e do rosto em lugares públicos pela propaganda hiperindustrialmodernista (assim como a multiplicação ad infinituum das músicas de fundo). De um lado os visíveis (e audíveis): os novos nobres, os conhecidos VIPs que tem acesso à tela e sobrepassam as fronteiras do jabá e do networking; do outro: os desconhecidos (os olvidados das museas), os ignorados pelos lobbys da imagem e do som. Nos âmbitos artísticos (casta estética) vivemos uma rostidade mais discreta, ainda que não menos influenciada pela maquinaria sociotécnica que atravessa mercantilmente a sociedade (fetichização do entreface), buscando impôr a expressividade codificada (enredamento das impregnações dos modos de escuta e soagem).
Imaginem a crise de aprendizagem do político que logo depois de ser maquiado em sua fisionomia, estudado e treinado durante horas em sua linguagem e em seu discurso, em seu sorriso e em seus gestos, recebe como último conselho de seu assessor de imagem e voz, um momento antes ir ao ar: “Bom agora, por favor, seja completamente natural e espontâneo”.

Ruidocracia

É sempre bom ver um neologismo seu se proliferar

ruidocracia
{estudo para o arcano XIII}
[1+12=13]Dentro da democracia dos signos não há espaço possível para o ruído, relegado à mera função de interferência ou adorno no paisagismo. Com isto sacrifica-se à margem qualquer possibilidade de sondagem profunda do ruir em si mesmo quando parte-se da linguagem.
[2+11=13]O signo do ruído é o cerne da tecnicologia dos dois extremos controles do demo(massa) aurais: No religar semiótico, permite aos ciclopes a contemplação da própria morte(XIII) ao mesmo tempo que os atira na surdez das iterações(progressões de redundâncias timbrísticas), eterno retorno da escala ao paraíso perdido da harmonia subjetiva(Ninguém me acertou). Já nas políticas simbólicas, gera os limiares das interações materiais dos objetos sonoros seja pela imanência heurística que transmuta o ruído novamente em sonema, como pela homeostasia dos sistemas musicais que imprime o foco tonal à redundância sonora de acordo com as dinâmicas entrópicas da rede.
[3+10=13]Podemos então falar de um ciclo de três modos de escuta do ruído dentro à natureza composicional, assim como podemos pensar um sentido como ruído(impregnação) do outro. Mas ainda, o multimídia quer estar em todas as modas ao mesmo tempo, para as dest'ruir.
[4+9=13]Ruído científico-profano: O ruído organizado como se observa no ícone matemático do ruido branco(white noise). O empalidecimento dos matizes cromáticos do barulho
gerado na síntese log arrítmica compõe a síntese dum espectro afetivo-racional. Os cães, como a estrela Sirius de Stockhausen vêem em preto e branco e ouvem melhor a síntese granular das altas freqüências que a pulsação esféride.
[5+8=13]Ruído sagrado: O índice dos silêncios potenciais, as paisagens sonoras em suas implosões de cores e sutileza de matizes. O templo é sagrado porque não está à venda para culto algum, o tempo é sagrado porque não pode ser cartografado. Color noises. João Jaula, procurando silêncios encontrou ruídos, buscando morangos achou cogumelos, buscando o tempo se deparou com a dança e a performance.
[6+7=13]Ruído comercial-laico: O barulho é o produto cultural ideal, pois não distingue a produtores e consumidores, mantém o trabalho da escuta no nível prototípico da soação sem perder nada da geometria tipológica da música. O que não é barulho brilhante no mercado cultural se restringe a interferência sistêmica(metaruído), mas sempre haverá um nicho de consumidores ávidos por turbilhões e é do mote fordista any color you lik
e as long as it's black que os sabbaths encontram seu caminho no seio da indústria da rebeldia. Black noise. Xenakis, o arquiteto busca ver com os sons pelo resto de sua vida o brilho da granada que lhe tomou um olho e um ouvido. A estocástica como religiosidade científica do ruído, a composição concreta dos desertos em rolos de memória. É noise na fita!
[0+13+0=13]O ideal de um mundo sem ruído político é alcançado pelo entranhamento de dois modos de conduta sonora: Uma codificação quântica em velocidades sempre acelerantes que prende os ouvidos pelas cadeias de Markov a uma certa faixa repertorial(as óperas de surdos-mudos da Cia. Invisível de Teatro Alchemico), ao mesmo tempo que uma exclusão pela inclusão como a observada no maximalismo academicista do fim de século. Este, pelo cálculo de todos os afetos musicais se nega a sentir as escutas que produzem seus sons(dir
eito autoral / dever atuante); se assemelhando assim com a irreversível entropia dos mercados de pasteurização fonográfica, que por excesso de redundância passaram a ser não mais que barulho para muitos.
[13+1=14]Laranja Eletrônica, os sonhos tangerinas dos rappers hackers acionistas de Beethoven nos templos do mantra de baixa tecnologia cruzam Dylan escarrando num intonarrumori: "Em direção ao abismo metálico entre os transistores e as cordas das guitarras... o ruído branco encontrará enfim o blues dos negros, as musascagam minérios em nós da névoa roxa antevista pelo terceiro ouvido de Hendrix ao roxo profundo das cabeças de máquinas... Nobody's gonna beat my car / It's gonna break the speed of sound / Oooh it's a killing machine / It's got everything."
[13+2=15]Sketch's Kitsch! A música como a melodia é em tempos de ostentação ruidística sempre meramente esboçada: ou sublimada pelo escárnio ou r
emixada pela obsolescência programada. Vês as rédeas que os produtores colocaram nas bandas pelas próprias bandas de freqüência? No futuro toda canção terá seus 15 segundos de barulho.
[13+3=16]O kitsch trabalha sempre sobre a ânsia de "querer parecer vanguarda" lembra Abraham Moles. O processo de sedução dupla da canção pop(por expansão novideira pseudocientífica e tradicionalismo hedonista pseudoreligioso) submergirá os famosos três acordes em camadas de atmosferas sonoras e hipnoses subliminares, do mesmo modo que engoliu a música geométrica pela ideologia significante(os violinos ao fundo do rap) e o transe mitológico pelo folclore(a onda de acústicos e a percussão maquínica).
[13+4=17]Pagu disse para Oswald: "A industrialização é, pois, por natureza, um desenvolvimento maternalístico". Quando toda a arte se sujeita ao desígnio do evolucionismo adaptativo dos modos de escuta estética o desáine se apresenta como padrão
de conduta ética do artista, que é reduzido a projetista de sensibilidades através de impulsos semânticos na vida pública privada. Aí, resta ao ruir artear.
[13+5=18]Canção, praça pública da música. Se podemos falar de democracia nos âmbitos do som seria, em termos tonais, o de uma arbitrariedade consentida de relações intervalares. Há caminhos sonoros que todos percorrem, há os cumes e cimos. Do metal ao doom há um duplo movimento de criação de uma micropolítica estética própria, ao mesmo tempo uma guturalização animalesca das macroestruturas industriais da forma-banda e uma complexificação das microestruturas digitais que almeja uma comedida máscara de desregramento. A corrupção se miniaturiza e toma entornos de uma opção estética, lógica da preferência tribal. Dietas das escalas pantone de ruído.
[13+6=19]A escultura ruidística como estilística do drone já tomou até mesmo as salas de dança com o Umwelt(Maguy Marin) mas ainda se mantém como linguagem de
resistência criativa à cultura capital nos undergrounds de todo o mundo. Merzbow pode bem ser colocado como o legado de Steve Reich e também como membro de uma guerrilha postgrindgore crystalpunk. Isto se dá porque o drone enquanto arquitetura fluida é a escolha pela especialização nas massas bonitas e sublime(imperativo estético legal kantiano), onde a formação sobrepassa a informação pela sua completa aceitação.
[13+7=20]O modelo dos carros muda, o som dos motores continua o mesmo. Enquanto você não parar seu carro não fale do meu drone, enquanto seu carburador queimar ossos não reclame de meu cigarro. Eis o ruído como nuvem de proteção radioativa, escudo eletromagnético da escuta nômade contra quaisquer arapucas de estilos. Bruito o retorno pós-apocalíptico à natureza da acusfera ionizada pelos impérios radiantes. Pitágoras a Orfeu no túmulo de Hermes: "Inaudivelmente alto, enternamente durante, longe alcançando", quando abre os olhos para ouvir a resposta vê Orfeu se afastando no horizonte cantando.
[13+8=21] Ao ruído nem som nem música resistem. À cibernética, rede
de volantes de volantes de redes de poderes, o carro serve de catedral barroca hipermoderna. Gonzalez me disse na lojinha de souvenirs da capela de ossos: "O modo diabólico está para o pós-moderno como a imagem do cristo para os barrocos". Na democracia dos signos, o ruído(e isto pode incluir tudo que soe de acordo com o desejo de escuta) é relegado ao âmbito de loucura, fazendo da própria escuta uma doença por envenamento(pharmakón).
[13+9=22] Devemos compreender que o registro direto do som é um fato novo na história do homem (a que os teosofistas nomeavam prisma das cores pela luz): data de pouco mais de meio século. Pensemos também no desenvolvimento dos processos audiovisuais(a harmonia sinestésica). Na época da reprodução da obra de arte(XV), torna-se obsoleta a idéia da arte desfrutada enquanto objeto raro e aparece a idéia da arte como contágio semiótico(Burroughs) A própria idéia da arte(III) é posta em questão. O que observamos em no
sso tempo é a explosão da informação sonora. A fartura(e miséria) do nosso tempo(ruídos inclusive) aumenta na medida mesma em que se difunde pela coletividade. A massa consome signos sonoros em massa. O modo tradicional de ouvir e compreender a música constitui uma pré-ordenação arcaica, com seus significados esclerosados, que não podem ser impostos ao grande público, pois a este o mundo industrial fornece tantos e tais meios de acesso e consumo do mundo sonoro, que ele próprio vai desenvolvendo sua capacidade de seleção e inteligibilidade. O que era qualidade se transforma em quantidade e é preciso encontrar os signos correspondentes a esta, para sua efetiva comunicação. O mundo das coisas vai-se dissolvendo e cedendo lugar ao mundo dos signos e da comunicação vital e vivencial. O mundo das coisas é feito de posse privada, o mundo dos signos, para a comunicação e a cultura pravida. Os objetos industriais(incluindo sua música), hoje, participam também da natureza da lingu
agem. O caos da informação sonora que nos aturde está a exigir uma ordem (não-definitiva - mas probabilística e mutável). Ordenar é selecionar e codificar. Codificar é transformar em signos - significar, tornar inteligível. Portanto, é comunicar. Aos trabalhadores do ruído, resta trabalhar dentro dos meios de comunicação de massa até que o sistema se transforme e seja absorvido. E ruir como imanência, ser o barulho de si mesmo no corpo coletivo. Zumbi indo!

Filosonia 0.2

Estarei observando o dia sem música por tantos motivos que não caberiam num box set de 48 cds com sinfonias e óperas compostas somente para isto.







O pensamento, esse soberano juiz do mundo,

traz ao homem sua mais plena dignidade.
Não é preciso o ruído de um canhão para impedir os seus pensamentos:
basta o ruído de um cata-vento ou de uma roldana.


Não vos espanteis se ele não raciocina bem agora;

uma mosca zumbe aos seus ouvidos:
é o bastante para torná-lo incapaz de conselho.


Se quereis que ele possa achar a verdade,

expulsai esse animal que põe sua razão em xeque
e perturba essa poderosa inteligência
que governa as cidades e os reinos.


Que deus divertido! O ridicolissimo heroé!

Blaise Pascal


Tornar as afecções(empathos: sympathos, antípathos) sensações(filia),
por cruzamentos no mar de memórias em sentimentos(feelings).
Em lógica, todo sentimento é uma patho-logia.
Paixão sonora.





O ruído eterno destes tempos implosivos me absurda.
Mas não será esta a desculpa para o autismo amplificado dos ipods.
Música, velocidade dos tempos. Alcançada principalmente através do som (peso do espaço no caos aéreo) entrecruzado pela luz, cor das ondas eletromagnéticas. Em silêncio, som sublima da matéria energia e condensa dinâmicas em estruturas geoônticas.
Corpó, escuta composição. Um diletantismo ativo, ou como riria o bombástico, um “atingir o intelecto através dos sentidos”.
Sofia é de escutas sinestésicas, enquanto Sonia fracta a luz compactando-a na tatonomia do au-dio. Tom, espera do silêncio.

Novalis cantou ao terminar de ouvir o velho: Quando dissemos algo abertamente, em verdade, nunca dissemos nada. Já quando recorremos às cifras e imagens velamos a verdade com o véu da beleza.” ... ... ... Síbila...
Música antecede a som como dança precede fala. Som sublima os corpos em energia através do ar(o que gesta a quimera pulmonar por vida e apodrece a carne morta) do mesmo modo que a luz dos campos eletromagnéticos através das cores musíca.

O compositor da operatotalis do burgo(Wagner o cibernético) se lembra de Fausto sobre o bêbado que gritava pedindo o fim do discurso e a entrada da bandinha no coreto(Beethoven, a escuta surda):
“Um supremo espetáculo!
Mas ainda, ai! Um espetáculo.
Onde findo-te, ó infinda Natureza?”

O rádio é uma substância eletromagnética implacável que avança irresistivelmente em todas as direções nas dimensões sonoras contra a qual toda resistência é inútil, logo artística. Seu uso pelas corporações humanas visa propagar pela informação a pandemia, submergindo-nos na quantidade sempre maior de produção cultural pela reprodutibilidade afetiva(cabendo lembrar que todo afeto após a psicanálise é senão uma técnica de pulsão desejante) transformando os limiares de cognições singulares, de modo que a música se tornou o desdobramento fractal do ruído, ruído entre ruídos. Melonoise.
{mas também sei que nenhum canto vale mais do que a vida...}
A rádio foi o pequeno riacho que moveu a compreensão musicante geométrica pré-industrial renascentista para a caosmose digital analógica por entre as margens das interfaces maquínicas (incluindo as abstratas) modernizantes que formam o contemporâneo limiar bauhaus-barroco (minimalismo-maximalismo, sempre intencionalistas).
“A natureza diferencia e copia, a arte copia e diferencia” Pascal
Outras cristalizações de transcópia, multifragmentação, até em última instância, a plena logaritmização do vão som-tom de onde captamos a música empírica, fizeram com que tal riacho espectral tornasse-se caudaloso e preenchesse de significados toda a gama coloral do mar do cinema(o átomo da composição digital é o quadro a quadro cinemagético), relegando a escuta ao narcisismo prostado diante deste como um lago de águas sujas paradas em estilos buscando por si mesma.
"Eu não sei dizer nada por dizer, então eu escuto....."
Dois pontos que Foucault levanta são particularmente interessantes para nós. O primeiro é que ele opõe as heterotopias(acusmoses) explicitamente às utopias(silêncio e tom) e implicitamente às distopias(ruído), “posicionamentos que mantêm com o espaço real da sociedade uma relação geral de analogia direta ou inversa”. Elas são “a própria sociedade aperfeiçoada” (ou piorada, no caso das distopias) ou “o inverso da sociedade”. Já com as heterotopias, percebe-se, que a relação com o suposto mundo real não é simétrica. Em vez de apenas amplificar ou reverter as representações que fazemos do mundo, a heterotopia desarticula seus elementos e os insere numa configuração totalmente nova. Fosse Foucault um alquimista diria que a heterotopia solve et coagula.
Eu falei “suposto mundo real”, e não foi por acaso. Porque o segundo traço das heterotopias, que nos conduz direto e reto de volta à metaficção sonora, é seu “papel de criar um campo de durações ilusórias que denuncia como mais ilusório ainda qualquer espaço real no devir entre cronos e aeon, todos os posicionamentos no interior dos quais a vida humana é compartimentalizada”.
Não se canta errado uma canção, se faz uma versão diversa do mesmo mito.
“Não apenas como os sons se compõem. Mas, mais difícil como percebemos este som em relação aos seus elementos contituintes?”
Como Berio disse de Stockhausen "Tapeceiro Sonoro" e de Cage "Tradução Musical do Jogo do Bingo", dir-se-ia de Boulez "Origami de Partituras".

Não apenas como as estruturas musicais se compõem. Mas, mais difícil ainda como percebemos esta música em relação ao seu contexto(seus silêncios)?
O maestro escuta com os dedos, prova disto são suas tentativas de agarrar o som com as mãos, ou ainda mais difícil, a música com a pele.
música: uma pulga metafísica atrás do som da orelha.
Da mesma forma que um som não existe sem todo o ruído que lhe é estranho, um músico sem toda a política da cidade(arquitetura musicante) dos sons não se manteria.
¡Cómo? ¿El oyente tiene pretensiones? ¿Las palabras deben ser entendidas?
O pós alfabético acena com o retorno do pulso nodal como ponto de apoio da linguagem no corpo, mímese morfopoética baseada não no talento mas no esforço e no trabalho:
“I know that I’m working very hard, as you are working very hard to know what I’m working on.” Xenakis sobre a performance musical de Bergson.
“Avalia o instrumento com seu corpo, incorpora a si as dimensões e direções, instala-se no órgão como nós nos instalamos em uma casa. O que ele aprende para cada tecla e para cada pedal não são posições no espaço objetivo e não é à sua memória que ele os confia. Entre a essência musical da peça, tal como ela está indicada na partitura, e a música que efetivamente ressoa em torno do órgão estabelece uma relação tão direta que o corpo do organista e o instrumento são apenas o lugar de passagem dessa relação.” Merleau Ponty incorporando Bach.
O silêncio é redondo mesmo, Bachelard. O som e os sonhos nos levariam aos delírios de audiomancia onde a pedra entra nos alhures do grão... Microtons ao fogo...
Os quatro modos de escuta de Pierre Schaeffer:
1.Écouter(Escutar): Disponibilizar o ouvido, interessar-se por. Foco dirigido ativamente a alguém ou a alguma coisa que me é descrita ou assinalada por um som. O naipe flamejante do desejo. A preaudição que estimula diretamente no instinto pelos neurotransmissores a uma prática musical.
2.Ouïr(Ouvir): Perceber pelo ouvido. Por oposição a escutar, que corresponde à atitude mais ativa, aquilo que ouço é aquilo que me é dado na percepção. As mirações vêm do som da floresta ecoando pra encontrar os corpos trespassados pelas raízes. A trompa d’água da prática sonora.
3.D´entendre(Dentretender): É o estágio da escuta no qual ocorrem as qualificações do ouvir, dependendo de uma intenção. Segundo Schaeffer, a origem etimológica da palavra aponta que entender é "ter uma ‘intenção’. Aquilo que entendo, aquilo que me é manifesto, é função dessa intenção." Escuta a melodia do vento. Escuta o ritmo das rajadas de vento. Escuta a harmonia espacial dos ventos criando turbilhões. Escuta a brisa que reverbera no espaço. “É preciso ser leve como uma andorinha, não como uma pluma.” – Valéry
4.Comprendre(Comprende): Realizado a partir da qualificação do entender ensimesmado, é o ato de perceber um sentido onde o som torna-se um signo que possui relações com um código cultural. O juízo dos estilos e a guerrilha aural da sociofonia e sonologia. O tremor e a sujeira da posse de um objeto pelo som, terra. Cuando Artaud habla de la erosión del pensamiento como de algo esencial y accidental a la vez, é como Diógenes o Cão lembrando que o som é a medida de todas as fraquezas humanas.

¡Cómo? ¿El oyente tiene pretensiones? ¿Las palabras deben ser entendidas? -Federico Nietzsche



A passada melodia entre astros não soa mais – disse a salamandra ao escaravelho.

A harmonia presenta o espaço polidimensional(polimorfias de polifonias).

Ritmo atira no arco gerúndio futurações.

Sobre a harmonia contextual:
1) a música é um fenômeno que envolve interação entre diferentes agentes para sua existência e desenvolvimento;
2) a significação musical é um caso particular de um processo geral de significação (assim como se pode estabelecer um contínuo entre os processos cognitivos e os processos naturais)
e
3) a cognição musical é um caso particular de uma descrição geral de cognição.




efemérides: uma vez potencializadas

as entranhas energéticas da noz,

que apodreças como o escaravelho
a germinar a voz

Gainza, que trata exatamente da descrição do processo de aprendizagem musical:
“La música, el ambiente sonoro – exterior al hombre – al entrar en contacto con las zonas receptivas de éste (sentidos, afectos, mente) tiende a penetrar e internalizarse, induciendo un mundo sonoro interno (reflejo directo o representación de aquel) que a su vez tendera naturalmente a proyectarse en forma de respuesta o de expresión musical."
Varela et al (1991) passam em revisão às três perspectivas da ciência cognitiva acerca da noção de cognição e de como ela ocorre. Para os autores, a versão cognitivista clássica, que se apóia em modelagens da inteligência artificial entende cognição como: Information processing as symbolic computation – rule-based manipulations of symbols. How does it work? Through any device that can support and manipulate discrete funcional elements – the symbols. The system interacts only with the form of the symbols (their physical attributes), not their meaning. The emergency of global states in a network of simple components. How does it work? Through local rules for individual operation and rules for changes in the connectivity among the elements.

"Pratica a Música Sócrates! A flauta vertebrada é o canto do cisne morto no ballet..."
Representations create understanding and desire.
A essência da música não consiste apenas em agradar os ouvidos, mas também em enganá-los. Seria preciso uma grande arte para não imitar o pássaro, mas cantar como ele.

“-Críton, não esqueçai de levar um galo a Esculápio!”
A prova(ensaio) de Nino Taro lembra que a sinfonia é a sintonia com a qual sonhava Ford na sua ditadura temporal, a sincronia dos planos na linha de montagem.
O computador é o instrumento que mais se assemelha à voz humana. Criptografa na própria carne(silíncio) os caminhos metálicos da eletricidade, criptofona.

Trapdoor paradox is the most simple type of computer virus
abre uma porta que abre uma porta que abre...
o fenômeno coquetel, onde
em meio a um espaço ruidístico
estrutura-se um território harmônico
onde se deslindam as vozes
do coro ao solo, o foco aural.

as mirações vêm do som da floresta ecoando pra encontrar os corpos trespassados pelas raízes, a cidade tem som de ruminar de engrenagens em combustão, que nos chega?
“A guerra deve ser em função da paz
A atividade em função do ócio
As coisas necessárias em função das belas”
- Aristóteles e a escuta pelo silêncio.

Se Sócrates percebia que o texto escrito nos faria perder a memória, Platão já concebia a caverna-cinema nos despojando da imagem-pensamento em nome de fluxo ainda mais rápido. A gravação sonora nos ensurdecerá da música deixando as escuta nos limites de ruído e silêncio. No futuro toda canção pop terá seus quinze segundos de ruído e seu 1.5 decibéis de composição subliminar.
“Descansar? Descansar de quê? Quando quero descansar eu viajo e toco pianos.” O urbanismo dos dados quer gestar uma arquitetura para os afetos através de um sistema iterativo de paisagens de dados... A iteração é também o sistema de busca nos bancos de dados. Se você gosta de Coleman, provavelmente te contarei sobre Roach, mas menos de Pärt?
"Cada palavra falada nos trai. A única comunicação tolerável é a palavra escrita, porque não é uma pedra em uma ponte entre almas, mas um raio de uma luz entre astros." - Fernando Pessoa
Tacitlo Oswald lentamente mastigava olhando os vinis. Mariô os dera, quatro baladas de chopin e o trio em lá menor de tchaikowsky, dizendo:
Nem mesmo nossos breves momentos de revolta escapam ao fascínio da imagem... - tomou fôlego no café e continuou - ... um sentimento de excrecência, tudo o que invizível e indizível afastou-se de nós... a falta, o enigma, o campo simbólico, que são exatamente as condições do pensamento. A sociedade espetacular(a cultura artística) não reprime o pensamento, torna-o dispensável; a exclusão dessa condição essencial da subjetividade deixa-nos desamparados no caos simbólico(a chuva em Mautner) desgarrados de uma dimensão essencial de nós mesmos. Tal sensação limítrofe da ultrapassagem do cognescido levou os grupos humanos todos a inventarem seus mitos, de modo que sejam dotadas de sentido as novas formas de ordem social. Ocorre que nossos mitos hoje são produzidos industrialmente, ou hiperindustrialmente.

A cultura deixou de ser a referência da alteridade para tornar-se espelho do que nos é mais íntimo e familiar, só que tal familiaridade nos vem de fora da subjetividade. No Palácio da Música, caminhando nos porões com Pitágoras, Cartola ri.
Beethoven tomando um mé no jardim com Bartók escuta um tremor que o amigo cantarola fazendo da traquéia cello, Stratos e Gonzaga riem histrionicamente. Caberia lembrar que museu era o nome da prisão que construira Hefaísto para as musas.

Laranja eletrônica, hackers acionistas de Amadeus transmutam a melodia(operacracking) em tempos de rúido ao escárnio kitsch da obsolescência programada destas em mero ruído social. Logo mais as bandas de rock serão tidas ou como ONGs de serviço público de catárse ou como jogos de videogueime.
Sobre a Apassionatta disse Lênin: “Se eu a continuar ouvindo não levarei a cabo a revolução”
Precisamos construir salas de ruídos, como em outros tempos houve a necessidade de construirem câmaras anecóicas que enfeitassem de bossa a oca fadada ao "nova noise" e salas de concerto onde se alimentava o olvidar das forças da natureza.
O espetáculo alimenta-se das intensidades(ouça gore doom e speed metal) a violência não lhe é hostil nem estranha. Ao contrário a violência("sete mil poetas sádicos nas sarjetas") é o combustível e a cocaína que abastecem o showbusiness, por isto os EspectaDores estão cada vez mais adaptados a ela.
This {uma química das cores não bastaria para os oceanos superhélios} is our Cage.
Só as mercadorias, em sua juventude renovada protegem o consumidor da velhice, da caduquice, da insignificância , do esquecimento outorgado a nós pelas dimensões.
Um site 2.0 gera um banco de cultura com produtos poéticos que valem moeda artística numa economia subjetiva em limiar de overdose.

Com uma desvinculação do valor de mercado da música temos uma mais valia do processo sobre o objeto artístico.
A massa desmassificante dos patchworks(a pureza dos dados) compõe na miniaturização dos gestos atuantes a programassom ambiental no cerne da figura do compositor, feito campo satélite de uma acusfera possível.

“Quem quiser se prestar a compreender o mundo deve saber ao menos uma linguagem de programação” Z Hegedus
De modo a explicar a necessidade de superação da precisão industrial por um ócio criativo, De Masi diz: “A eternidade surge na cidade de Belém, o berço famoso das primeiras covas e liras, como consolação à morte assim como a arte só deixou marcas de seu nascimento fisicamente num ornato a uma flecha(que mira a beleza?)..."
Quando em maior perigo, Ulisses se amarrou às sereias pra não ouvir o mastro... à luz sê nó, gêneo.
As ondas sociais que Toffler ressalta são a senoidal espiral de Quetzacoatl como a frequência do Leviatã, o pulso nodal. Tal música transfigurada em ruído das séries aurais demanda o anonimato em nome da subjetividade coletiva(micropoder da ruidocracia), sem que se distingam o começo de uma ou o fim da outra nesta trilha sonora, pois é no campo filosônico entre música e som que jaz o inefável para ambas e para nós: o silêncio que desistimos de ouvir.
“Faltam pessoas que realizem o silêncio,
aquilo que não tem futuro.”